Micronutrientes

Como os micronutrientes melhoram o sistema imunológico

Um aspecto relevante na relação entre nutrição e sistema imunológico diz respeito à complexa interação entre a ingestão inadequada de nutrientes, a exacerbação do estresse oxidativo e a ocorrência de processos infecciosos. Os novos conceitos advindos da literatura, com respeito a essa tríade, têm trazido novas e intrigantes indagações. Para se começar a entendê-las, devem ser compreendidos os conceitos de radicais livres (RL), estresse oxidativo e defesas antioxidantes. Os RL são caracterizados pela presença de elétrons não pareados na superfície. A presença de elétrons não pareados no átomo ou molécula aumenta a sua reatividade química.

 

Os RL são: radical superóxido, peróxido de hidrogênio, radical hidroxila e o óxido nítrico. Os principais indutores de sua produção pelos neutrófilos são os microorganismos fagocitados. Assim, os RL tomam parte na destruição de microorganismos durante o processo de fagocitose e atuam como fatores de transcrição na sinalização intracelular, induzindo à apoptose. Quanto aos eventos adversos, sua produção tem sido implicada na carcinogênese, na progressão de doenças cardiovasculares, na patogênese da sepse, em complicações do diabetes mellitus, disfunções cognitivas associadas ao envelhecimento e também na isquemia tecidual seguida de reperfusão que ocorre, por exemplo, em procedimentos cirúrgicos.

 

Aos efeitos nocivos das reações de oxidação induzidas pelos RL e capazes de lesar as estruturas dos sistemas biológicos dá-se o nome de estresse oxidativo. Pode resultar do excesso na produção oxidante ou da depleção das defesas antioxidantes. Tais defesas são constituídas por ácidos graxos poliinsaturados de cadeias longas, substâncias hidrossolúveis e enzimas e derivam principalmente da dieta, como no caso das vitaminas E, C, carotenóides, e dos elementos-traço zinco, cobre e selênio.

 

Outros componentes importantes da defesa antioxidante são as enzimas: superóxido-dismutase (dependente de cobre, zinco e manganês), glutationa peroxidase (dependente de selênio) e catalase. Além de suprimirem o componente inflamatório, os antioxidantes podem estimular a resposta imunológica celular, ocorrendo o inverso quando as defesas antioxidantes estão diminuídas.

O aumento de RL circulantes nas formas graves de desnutrição energético protéica (DEP) desencadearia um aumento na permeabilidade endotelial possibilitando a formação do edema.  Na desnutrição, o comprometimento na função imune aliado à exacerbação do estresse oxidativo podem contribuir para a ocorrência de processos infecciosos sistêmicos e graves o que eleva sobremaneira a morbimortalidade. Além da DEP, outras carências nutricionais, de maneira isolada ou combinada, podem interferir na função imunológica. Podemos citar:

Ferro

A deficiência de ferro é a carência nutricional mais prevalente no mundo, afetando principalmente crianças em idade precoce e gestantes. A carência, além de muito prevalente, persiste ao longo das décadas e é capaz de ocasionar efeitos negativos e potencialmente irreversíveis no desenvolvimento. No Brasil, a prevalência de anemia é de 53%, principalmente em menores de 2 anos. O ferro é componente de várias proteínas, incluindo enzimas, citocromos, mioglobina e hemoglobina. As melhores fontes deste mineral, por possuírem maior proporção de ferro heme, são as carnes, principalmente as vermelhas e vísceras (fígado, rim e coração). A recomendação de ferro para crianças (RDA – recommended dietary allowance) é de 11 mg/dia para lactentes entre 7 e 12 meses, 7 mg/dia entre 1 a 3 anos, 10 mg/dia entre 4 a 8 anos, 8 mg/dia entre 8 e 13 anos, sendo entre 14 e 18 anos de 11 mg/dia para meninos e 15 mg/dia para meninas. O leite humano (LH) apresenta em média 0,5 mg/litro, com elevada biodisponibilidade.

 

Ao longo da lactação, ocorre redução fisiológica no conteúdo de ferro no LH, atingindo concentrações de 0,35 mg/litro, por volta do quinto mês. Nesta fase, cerca de 70% das necessidades de ferro deveriam ser supridas pela alimentação complementar rica em alimentos fonte de ferro. Estudo recente enfatizou que a deficiência de ferro, com ou sem anemia, pode causar sérias repercussões no desenvolvimento, resultando em elevação na morbimortalidade, prejuízos no desenvolvimento motor e neurofisiológico, além de afetar globalmente o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. Em relação à função imunológica, vários estudos têm associado a deficiência de ferro a defeitos tanto na resposta adaptativa quanto na resposta inata do indivíduo.

 

Os defeitos na resposta adaptativa incluem a redução da proliferação, diferenciação e do número células T, bem como redução da produção de citocinas por essas células. Já os defeitos na resposta inata incluem a redução da capacidade fagocitária dos neutrófilos, provavelmente devido à baixa atividade da mieloperoxidase e falhas na atividade das células natural killer (NK). Entretanto, há controvérsias sobre a participação da deficiência de ferro na imunocompetência do indivíduo. Alguns autores defendem que a deficiência de ferro predispõe o indivíduo a infecções, enquanto outros sugerem proteção contra microorganismos. No Brasil, devido às altas prevalências de anemia carencial ferropriva, especialmente em lactentes, preconiza-se a suplementação universal profilática, aliada a oferta de alimentos ricos ou fortificados com ferro.

Zinco

A essencialidade do zinco para a vida foi descoberta no século XIX e foi definida no início do século XX. O zinco é essencial para o crescimento, desenvolvimento e função imunológica. Suas funções biológicas podem ser divididas em catalíticas, estruturais e regulatórias. Mais de 100 enzimas são dependentes do zinco como catalisador, entre elas, álcool desidrogenase, fosfatase alcalina e RNA polimerases. É essencial, também, para a estrutura de certas proteínas envolvidas na expressão gênica influenciando a apoptose e a atividade da proteína C quinase.

 

Como função estrutural ele participa como parte integrante de enzimas antioxidantes como a cobre-zinco-superóxido dismutase. Mais de 85% do zinco corporal total encontra-se no músculo esquelético e osso e, apenas 0,1% circulam no plasma. Há relação entre o zinco e as células do sistema imunológico, incluindo atividade de células T auxiliadoras, desenvolvimento de linfócitos T citotóxicos, hipersensibilidade retardada, proliferação de linfócitos T, produção de interleucina (IL)-2 e apoptose de células de linhagens mieloide e linfoide. A presença de 5’NT (ecto-5’-nucleotidase) na membrana celular depende de zinco; esta enzima está presente nas subpopulações de linfócitos T e B com maior expressão nos linfócitos T CD8 +. Um efeito observado na deficiência de zinco é a redução na produção de citocinas como o interferon-α pelos leucócitos. A timulina, cuja atividade biológica depende de zinco, é importante para a maturação e diferenciação de linfócitos T.

 

Alguns autores descrevem em crianças desnutridas graves a importância da chamada recuperação imunológica, às custas da suplementação de micronutrientes envolvidos na função imunológica, especialmente o zinco. A suplementação abrevia o tempo de internação, recorrência de processos infecciosos e, consequentemente, reduz o tempo de recuperação do estado nutricional. Outro aspecto importante, evidenciado em animais de experimentação, que pode estar relacionado à deficiência de zinco associada à desnutrição, é a redução na produção de imunoglobulinas E com reflexo na redução da resposta vascular do trato gastrintestinal. A deficiência de zinco provoca, ainda, alterações profundas no processo linfopoiético da medula óssea em camundongos por causar perda importante na proporção das “small nucleated cells”, que englobam grande número de células linfóides em desenvolvimento e, em particular, perda na linhagem precursora de células B. A deficiência de zinco tem profundo efeito nessas células, principalmente nas células B que se encontram no estágio inicial de maturação (que incluem as células pró e pré-B).

 

Estima-se que a deficiência de zinco, comumente associada à desnutrição protéico-energética, tenha elevada prevalência em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como o Brasil, acentuando-se em populações sem acesso ao alimento de origem animal, principalmente carnes vermelhas, melhor fonte biodisponível de zinco. Atualmente acredita-se que a ingestão deficiente de zinco atinge mundialmente cifras superiores a 20,5%. As manifestações clínicas decorrentes da deficiência de zinco podem variar desde quadros leves com aumento da suscetibilidade a infecções, redução do peso corporal e massa muscular e dos níveis de testosterona com oligospermia até quadros graves (acrodermatite enteropática-like) com dermatite bolhosa pustular, dermatite acro-orificial, desordens emocionais (irritabilidade, letargia e depressão), lesões orais, alopecia, anorexia e comprometimento importante do crescimento. O requerimento diário de zinco varia de acordo com a idade do indivíduo. O controle dos níveis internos deste mineral é tão eficiente que praticamente não existe toxicidade relacionada a ele e seus principais mecanismos de regulação são a absorção e excreção intestinal.

 

IdadeNecessidade de zinco
0 – 6 meses2,0 mg
7 – 12 meses 3,0 mg
1 – 3 anos 3,0 mg
4 – 8 anos5,0 mg
9 – 13 anos8,0 mg
14 – 18 anos (meninas) 9,0 mg
14 – 18 anos (meninos)11,0 mg

 

Necessidade diária de zinco, de acordo com a idade. Fonte: Dietary References Intakes, 2000.

 

As estratégias de intervenção adotadas na deficiência de zinco permeiam a educação nutricional, suplementação e fortificação de alimentos. Outras estratégias mais recentes envolvem a biofortificação e a redução do conteúdo de fitatos em alimentos vegetais. Indica-se a suplementação terapêutica de zinco em duas situações bem definidas pela Organização Mundial da Saúde: diarréia aguda e na desnutrição grave.

 

Vitamina A

A vitamina A pré-formada (retinol) é encontrada naturalmente em alimentos de origem animal, enquanto os carotenóides, os quais são convertidos em vitamina A no organismo, são presentes em óleos, frutas e vegetais. As principais fontes de retinol são fígado, leite e derivados e peixe. As recomendações nutricionais (RDA) para vitamina A são: 300 ug ER/dia entre 1 a 3 anos de idade, 400ug ER/dia entre 4 a 8 anos de idade, 600 ug ER/dia entre 9 e 13 anos de idade e de 900 e 700 ug ER/dia entre 14 e 18 anos de idade para meninos e meninas, respectivamente.

 

A vitamina A desempenha várias funções, sendo importante para a visão normal, expressão gênica, reprodução, desenvolvimento embrionário, diferenciação tissular, defesa antioxidante e função imunológica. Em relação ao sistema imunológico, a vitamina A modula a resposta de células fagocitárias, estimulando a fagocitose, a ativação da citotoxicidade mediada por células e o aumento na resposta de timócitos a mitógenos específicos, aparentemente por aumentar a expressão de receptores de IL-2 em suas células precursoras. O ácido retinoico proporciona liberação seletiva de IL-1 por monócitos do sangue periférico de seres humanos. Adicionalmente, aumenta a porcentagem de células linfóides que expressam marcadores de superfície de linfócitos T auxiliares, enquanto o β-caroteno aumenta a percentagem de células linfóides com expressão de marcadores de células NK, o que sugere uma atuação diferenciada dos vários retinóides na imunidade celular específica.

 

A deficiência de vitamina A associa-se a redução da produção de anticorpos contra polissacarídeos bacterianos e antígenos protéicos em estudos experimentais e à piora do controle da infecção por micobacteriose e esquistossomose em seres humanos. Estudos recentes têm implicado o ácido retinóico (AR) em funções importantes dos linfócitos T, principalmente na mucosa intestinal. As células Th17 são células T auxiliares, produtoras de IL-17, que estão associadas com manifestações auto-imunes. Sua geração é dependente de TGF-β e promovida pela IL-6. A deficiência de vitamina A (DVA) é caracterizada pela inadequação do estado nutricional relativo à vitamina A quando, do ponto de vista bioquímico, as reservas hepáticas encontram-se abaixo de 20 µg/g (0,7 µmol/g). Os níveis séricos inferiores a 0,35 µmol/l, 0,70 µmol/l e 1,05 µmol/l caracterizam a carência grave, leve e deficiência subclínica, respectivamente.

 

Há um número expressivo de crianças, especialmente nos países em desenvolvimento, com DVA. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), em 2006, revelou que a DVA afeta 17,4% dos menores de 5 anos e 12,4% nas mulheres em idade reprodutiva. Em crianças, as maiores prevalências dessa inadequação foram encontradas no Nordeste (19,0%) e Sudeste (21,6%) do País, sendo estatisticamente significante a diferença dessas prevalências em relação às das outras regiões. Por intermédio da Portaria Nº 2160 de 29 de dezembro de 1994 do Ministério da Saúde, foi instituído o Programa de Combate à Deficiência de Vitamina A que persiste até hoje e consiste na administração profilática de megadoses a mulheres no pós parto imediato e crianças a cada 4/6 meses para residentes em regiões consideradas de risco: áreas da região Nordeste, o Estado de Minas Gerais (região Norte, Vale do Jequitinhonha e Vale do Mucurici) e o Vale do Ribeira, em São Paulo. Rotineiramente, utiliza-se a Campanha Nacional de Vacinação contra a poliomielite como estratégia operacional para administração de uma das duas doses anuais.

Fonte: Sarni ROS et al., Micronutrientes e sistema imunológico. Revista brasileira de alergia e imunopatologia – Vol. 33, No 1, 2010.

Posts relacionados:

medicamentos errado

Hábitos errados na hora de tomar o medicamento

Se tomarmos os medicamentos de forma errada, podemos reduzir a...